Poemas


Arca


O que se esconde neste baú

que sonhos, que quimeras

deixei ali e agora

não consigo enxergar?


Como fui capaz de enterrar

meus próprios sonhos e prazeres

Que aventuras escondi aos meus olhos

e de que adiantou isto

se minhas mãos anseiam em tocar

o papel amarelado e amassado no fundo da gaveta


Delícia como comer sobremesa sem jantar

Apenas de sonhos se alimentar

não se deixar congelar pelo coração

e ser atropelada pela multidão

que a priori nos incapacita de irmos

aonde queremos.


Os sonhos,

de dentro do seu túmulo

socam e gritam de dentro do caixão

avisando que estão vivos e querem sair.


Meu coração congelado

me fez surda aos anseios sussurrados

mas subitamente vejo minhas mãos ávidas

e, confiando na sabedoria

que elas já adquiriram,

as deixo procurar.


Mãos atrevidas tocam todo lugar

abrem portas e gavetas

mãos surdas e ceguetas

que tateiam sem parar


Sábio destino

espera o ápice do momento

mãos de fora que procuram

e mãos de dentro que esmurram

tem breve casamento


Mãos trêmulas tocam os sonhos

sonhos ávidos tocam o coração

libertando aquele ser de sua prisão

que é viver sem ter um alvo a alcançar

um sonho para sonhar

se permitir ser quem quiser

e se impedir de ser levado com a maré


O túmulo escancarado

é a prova de que há algo errado

mãos de sonho escrevem estas palavras

e um coração gelado é convidado a se isolar.

Palco e Bastidores

Todos querem subir ao palco e brilhar. Sentir a luz do holofote no rosto, olhar a platéia e se embriagar ao som das palmas.

Todos aqueles que brilham tiveram alguém ou fizeram muito para que tudo que apareceu brilhante chegasse àquele momento.

Ofuscados ficam todos que ainda acreditam que somente o improviso e a inspiração elevam o aspirante à “fama” e à “glória”.

Que o estudo, a disciplina, o método e a perseverança são apenas palavras citadas por aqueles que conseguiram. Não são apenas palavras escritas. Sem a aplicação dos seus significados no cotidiano, se perde muito em qualidade e mérito de suas ações.

Não desconsidero de forma alguma o improviso e a inspiração; ressalto que esses dois são os toques finais e mágicos que coroam o estudo e o trabalho, que por isso mesmo são chamados de bastidores, e assim só o resultado aparece. Sem segredos nem mágica: apenas dedicação.

Há aqueles que sonham e vivem para o palco. Há outros cujo prazer consiste em levar ao palco quem busca a realização dos seus desejos.

Estou de volta, mas nem sempre apareço, pois estou nos bastidores.

Pimenta Verde Prateada

Parte  I – Lisboa

 

Pois que ouço,

como se fosse hoje,

longas tardes de silêncio e de murmúrio.

 

Olhos tristes de um inseguro

momento que passou à toa.

Olhos verdes de Lisboa

angústia, gritos incessantes

de alguns passantes

ao perceberem a grave cena.

 

Diz-me para que me cales

e que contigo não mais fales

Situação absurda

pois que tão óbvia e prevista

e tão impossível de realizar

 

Olhos de prata choram no mar

incrível oceano prateado

das lágrimas o gosto salgado

e no céu o prata do luar.

 

Olhos de pimenta vermelha

acesa nos caminhos errados

desbotados de tanto chorar

e verde como o mar

mostra-se a verdadeira cor

dos olhos já desinchados de chorar

pois que a solução não há de agradar

mas se outra solução não há

nada há a fazer para evitar.

 


Parte II – Panos e Baldes

 

Pimenta verde prateada

deságua seu lagrimejar

e venho eu agora

 

carregada de panos e baldes

para esse prateado oceano secar.

Pois que enxáguo

e de nada adianta

já que as ondas trazem

mais lágrimas de molhar.

 

Um dia o pranto seca

a alma se aquieta

e os panos posso aposentar

até chegar o inevitável momento

que outro inexorável sofrimento

venha requerê-los para trabalhar.

 

Panos e baldes vou colecionar

cada um tem sua estória pra contar:

este foi de desengano,

este foi de destratar;

este foi de frieza,

aquele foi de mal-amar.

 

Coleciono meus panos

com os nomes de seus fulanos

e também dos que me fizeram chorar;

mas estes baldes eu guardo no canto

pois que não quero lembrar do tanto

que eles já me fizeram secar.

A Mão e o Vidro

Após seguidos anos de consecutivos maus-tratos e destratos, o Vidro se encontrava imundo. Na verdade, tão sujo, tão poluído que nada se via através dele, tudo se perdia.
O Vidro pensava, pois já nada refletia, com suas partículas de silício, o que ele fizera para chegar a esse ponto. Pingos d’água, sujeira, desleixo, ficar sempre para depois, falta de ser prioridade.

Mas hoje o Vidro ousou em sua humilde vida. Queria ser limpo, para através de si refletir a verdade às pessoas. Os olhos que acompanhavam a Mão viram tudo. A desesperança do sentimento e a sinceridade de querer ser algo melhor.

E assim a Mão agiu. Gentilmente, passou água para que não ardessem as antigas feridas e envolvendo-Se ela mesma com o sabão, passou a lavar o Vidro com carinho, com o Amor de quem usa os olhos para realmente ver.

De cima a baixo o Vidro foi limpo. O que antes parecia condenado a ser eternamente maculado ia aos poucos deixando transparecer seu interior. Após o sabão, água, energia que revigora as forças perdidas. E o Vidro foi limpo três vezes, pois a Mão era trina. Antes da limpeza todas as luzes foram apagadas para que só houvesse uma Luz.

Ao final da terceira lavagem, o Vidro se sentiu digno de sua missão: separar ou unir ambientes de forma a sempre transparecer a verdade para todos. O que parecia impossível depois de sofridos anos foi concretizado em poucos minutos.

O fato concreto, o Vidro limpo e purificado para recomeçar sua vida foi a conseqüência de alguém que nada vendo como saída, ousou querer que algo acontecesse. O Vidro será eternamente grato à Mão Trina.

Ambulante

Malas

Sempre prontas

Arrumadas em cima da cama

Muitos lugares

Idas e vindas

Umas físicas, outras sentimentais

Amigos são fundamentais

E o vazio constante

De quem carrega

A própria alma

Como um ambulante.

Lar?

Pedaço de terra firme com um nome na escritura?

Ou apenas um canto, um ninho um pouso?

O que é estrutura?

Embasamento de vergalhões e concreto

Ou um amor sólido e poucos amigos

Com os quais você pode contar

E convidar para o seu lar?

Vivendo viajando, aeroportos,

Rodoviárias, distâncias

Poucos amigos espalhados por bairros,

municípios, cidades, países.

Sempre muita gente conhecida,

mas poucos amigos.

Os anos nos mudam?

Vivendo de um canto ao outro,

Procurando o seu local. O seu lugar

Ainda que não tenha estrutura

Ainda que não tenha escritura

Ainda que seja um campo de refugiados no deserto,

Cercados de minas terrestres.

Um amor sólido, poucos amigos,

Algum pouco dinheiro ganho

Como fruto do próprio trabalho

Estudando, lecionando,

escrevendo

E buscando todo tempo

A Humanidade

dentro de mim.

Mochilas

Malas urbanas customizadas pelo varejo

Malas urbanas onde escondemos nossa alma

Enquanto conseguirmos nos manter em silêncio

Ou sem ter como registrar o que pensamos

Exalamos nossas almas

na nossa voz, nos nossos escritos,

nas músicas que compomos.

Almas exaladas que confortam

outras almas cansadas

Vozes espalhadas pelas distâncias

das milhagens percorridas na malha urbana

Poetas, pregadores, pensadores artistas

Que exalam suas almas

Que carregam em malas

Como um ambulante.