Literária


Lagoa

Sozinha estou e sozinha estarei por mais acompanhada que esteja. A multidão não me influi, mas a sua companhia ou sua ausência são igualmente bem vindas. Rostos, corpos, cheiros, sons, vozes, paisagens complementam minha vida, alheia de todos, do mundo e de si mesma. Minha cidade e meu povo são a moldura dos quadros que pinto todos os dias. Quadros grandes ou pequenos, retratos da vida de vários ângulos e de várias vidas simultaneamente. Dias e noites não são passados em vão, sinto o amadurecimento correndo nas minhas veias, com todas as conseqüências deste fato notório e inexorável. Escrevo digitando, olhando só para as teclas e ouvindo “Chega de Saudade”, que me faz lembrar, não sei porque, a Lagoa Rodrigo de Freitas, e o quadro se pinta, sozinho, diante dos meus olhos na minha frente: logo cedo pessoas que tem condições de morar neste bairro fazendo sua caminhada matinal; passar pela lagoa à tarde indo pra algum compromisso na zona sul; a volta para casa no trânsito do fim de expediente; famílias brincando com filhos e passeando de bicicleta no fim de semana. Pessoas e paisagem entrelaçados… Um lugar belo freqüentado por pessoas bonitas, ricas e felizes…
E a solidão impera… pois a felicidade está nos momentos, como os citados anteriormente; mas a solidão é estar num desses lugares lendo um livro; pensando em alguém querido e no momento distante; ter um segredo e não poder, mesmo querendo, contar pra ninguém. Não necessariamente a solidão é triste; mas, como a felicidade, é feita de momentos… de solidão interior, de solidão externa, de quem está num lugar conversando, e em um momento se desliga e olha com outros olhos a situação que está vivendo.
Sozinha estou e sozinha sempre estarei. Para mim, a solidão é intrínseca a mim mesma. Não sei se isto é bom ou mau; mas sinto claramente que me iludo quando penso que em algum momento eu possa não estar sozinha… pois estar acompanhada é participar, se envolver, e eu não sei fazer isso… fico olhando o mundo, analisando-o, fazendo teorias, observando as pessoas e vendo o que há de tipicamente humano, masculino ou feminino, não rotulando as pessoas, mas justamente querendo retirar dos casos concretos a base para minhas teorias…
Talvez eu não saiba viver, ou ainda viver como os outros vivem. No entanto, eu já sei extrair dessa maneira que eu vivo a minha maneira de ser feliz.
Escrito em 2004.
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A fase do meu “exílio voluntário” passou,  mas me legou alguns textos, como esse, o primeiro sem lápis e papel.

Arca


O que se esconde neste baú

que sonhos, que quimeras

deixei ali e agora

não consigo enxergar?


Como fui capaz de enterrar

meus próprios sonhos e prazeres

Que aventuras escondi aos meus olhos

e de que adiantou isto

se minhas mãos anseiam em tocar

o papel amarelado e amassado no fundo da gaveta


Delícia como comer sobremesa sem jantar

Apenas de sonhos se alimentar

não se deixar congelar pelo coração

e ser atropelada pela multidão

que a priori nos incapacita de irmos

aonde queremos.


Os sonhos,

de dentro do seu túmulo

socam e gritam de dentro do caixão

avisando que estão vivos e querem sair.


Meu coração congelado

me fez surda aos anseios sussurrados

mas subitamente vejo minhas mãos ávidas

e, confiando na sabedoria

que elas já adquiriram,

as deixo procurar.


Mãos atrevidas tocam todo lugar

abrem portas e gavetas

mãos surdas e ceguetas

que tateiam sem parar


Sábio destino

espera o ápice do momento

mãos de fora que procuram

e mãos de dentro que esmurram

tem breve casamento


Mãos trêmulas tocam os sonhos

sonhos ávidos tocam o coração

libertando aquele ser de sua prisão

que é viver sem ter um alvo a alcançar

um sonho para sonhar

se permitir ser quem quiser

e se impedir de ser levado com a maré


O túmulo escancarado

é a prova de que há algo errado

mãos de sonho escrevem estas palavras

e um coração gelado é convidado a se isolar.

Sim, eu estive triste. Não, não estou mais.

Sim, eu pensei em desistir de muitas coisas e de muita gente. Não, não fui programada pra desistir dos meus sonhos nem dos meus amigos verdadeiros.

Sim, sempre disse que era uma mulher de uma palavra só. Não, não pude cumprir muito que tinha dito. O que tem como ainda ser feito será retomado.

Sim, sou complicada, gosto de música, artes plásticas, literatura e não gosto de muita rotina. Não, não vou por isso deixar meu lado advogada e empresária, que precisa de horários e rotinas, de lado.

Sim, é sempre complicado ser “você mesma”; mas não acredito que haja outro caminho a não ser a sinceridade.

Quem disse que o ano está acabando? Quem decide os ciclos da vida?

“Am I the same girl? Yes, I am, Yes, I am”… not.

Somos alunos. Estamos matriculados regularmente, freqüentamos as aulas, passamos nas provas. E nos encontramos no meio do nosso caminho universitário.


Não necessariamente somos estudantes. O Pacto está feito: os livros estão ai, descansando languidamente nas prateleiras de nossas estantes ao sabor do ar condicionado que o envolve, quando não toma banho de sol na varanda da biblioteca. Mas estes foram feitos para serem olhados, meramente consultados – pois logo no primeiro dia de aula todos os professores nos “tranqüilizam” avisando que poderemos passar direto em suas matérias apenas com as anotações em caderno, nos poupando o extenuante trabalho de pensar. Algumas vezes, quando o “mestre” resolve faturar alguns trocados, adota-se um livro – o escrito pelo próprio professor. De qualquer forma, sempre há a necessidade da adoção de alguma corrente teórica – e assim, os cadernos se tornam o resumo de um determinado livro. Tudo o que temos que fazer é decorar essas anotações, tirarmos 10, fazer a alegria da família, constituir um bom C.R., arranjar um bom emprego e dormimos todos os dias em paz com nossas consciências.


E sendo assim somos escravos. Não temos direito ao básico: a discordar de uma teoria ou corrente ideológica. Pois quando nos apresentam uma tese como sendo a verdade, não há o que contestar – quem contestaria a Verdade? Aceitamos placidamente o que nos é dito – e a Verdade é inaplacável com seus contestadores: tasca-lhes um zero, reprova-os, tenta marcar suas vidas com o símbolo dos perdedores.


Somos todos alunos. Mas nem todos são estudantes e nem todos são cordeirinhos. Ainda assim, sempre haverá a maioria esmagadora e a minoria combativa. Não lutamos pela razão, mas pelo direito de termos idéias próprias e sermos respeitados por isso.

Palco e Bastidores

Todos querem subir ao palco e brilhar. Sentir a luz do holofote no rosto, olhar a platéia e se embriagar ao som das palmas.

Todos aqueles que brilham tiveram alguém ou fizeram muito para que tudo que apareceu brilhante chegasse àquele momento.

Ofuscados ficam todos que ainda acreditam que somente o improviso e a inspiração elevam o aspirante à “fama” e à “glória”.

Que o estudo, a disciplina, o método e a perseverança são apenas palavras citadas por aqueles que conseguiram. Não são apenas palavras escritas. Sem a aplicação dos seus significados no cotidiano, se perde muito em qualidade e mérito de suas ações.

Não desconsidero de forma alguma o improviso e a inspiração; ressalto que esses dois são os toques finais e mágicos que coroam o estudo e o trabalho, que por isso mesmo são chamados de bastidores, e assim só o resultado aparece. Sem segredos nem mágica: apenas dedicação.

Há aqueles que sonham e vivem para o palco. Há outros cujo prazer consiste em levar ao palco quem busca a realização dos seus desejos.

Estou de volta, mas nem sempre apareço, pois estou nos bastidores.