Arca


O que se esconde neste baú

que sonhos, que quimeras

deixei ali e agora

não consigo enxergar?


Como fui capaz de enterrar

meus próprios sonhos e prazeres

Que aventuras escondi aos meus olhos

e de que adiantou isto

se minhas mãos anseiam em tocar

o papel amarelado e amassado no fundo da gaveta


Delícia como comer sobremesa sem jantar

Apenas de sonhos se alimentar

não se deixar congelar pelo coração

e ser atropelada pela multidão

que a priori nos incapacita de irmos

aonde queremos.


Os sonhos,

de dentro do seu túmulo

socam e gritam de dentro do caixão

avisando que estão vivos e querem sair.


Meu coração congelado

me fez surda aos anseios sussurrados

mas subitamente vejo minhas mãos ávidas

e, confiando na sabedoria

que elas já adquiriram,

as deixo procurar.


Mãos atrevidas tocam todo lugar

abrem portas e gavetas

mãos surdas e ceguetas

que tateiam sem parar


Sábio destino

espera o ápice do momento

mãos de fora que procuram

e mãos de dentro que esmurram

tem breve casamento


Mãos trêmulas tocam os sonhos

sonhos ávidos tocam o coração

libertando aquele ser de sua prisão

que é viver sem ter um alvo a alcançar

um sonho para sonhar

se permitir ser quem quiser

e se impedir de ser levado com a maré


O túmulo escancarado

é a prova de que há algo errado

mãos de sonho escrevem estas palavras

e um coração gelado é convidado a se isolar.