Somos alunos. Estamos matriculados regularmente, freqüentamos as aulas, passamos nas provas. E nos encontramos no meio do nosso caminho universitário.
Não necessariamente somos estudantes. O Pacto está feito: os livros estão ai, descansando languidamente nas prateleiras de nossas estantes ao sabor do ar condicionado que o envolve, quando não toma banho de sol na varanda da biblioteca. Mas estes foram feitos para serem olhados, meramente consultados – pois logo no primeiro dia de aula todos os professores nos “tranqüilizam” avisando que poderemos passar direto em suas matérias apenas com as anotações em caderno, nos poupando o extenuante trabalho de pensar. Algumas vezes, quando o “mestre” resolve faturar alguns trocados, adota-se um livro – o escrito pelo próprio professor. De qualquer forma, sempre há a necessidade da adoção de alguma corrente teórica – e assim, os cadernos se tornam o resumo de um determinado livro. Tudo o que temos que fazer é decorar essas anotações, tirarmos 10, fazer a alegria da família, constituir um bom C.R., arranjar um bom emprego e dormimos todos os dias em paz com nossas consciências.
E sendo assim somos escravos. Não temos direito ao básico: a discordar de uma teoria ou corrente ideológica. Pois quando nos apresentam uma tese como sendo a verdade, não há o que contestar – quem contestaria a Verdade? Aceitamos placidamente o que nos é dito – e a Verdade é inaplacável com seus contestadores: tasca-lhes um zero, reprova-os, tenta marcar suas vidas com o símbolo dos perdedores.
Somos todos alunos. Mas nem todos são estudantes e nem todos são cordeirinhos. Ainda assim, sempre haverá a maioria esmagadora e a minoria combativa. Não lutamos pela razão, mas pelo direito de termos idéias próprias e sermos respeitados por isso.
Segunda-feira, 28 Abril, 2008 at 12:58 am
Escrito durante a graduação de Direito na UERJ, 1999.
Sexta-Feira, 16 Maio, 2008 at 2:01 pm
Ana:
Você falou aí uma grande verdade – não há liberdade de ensino, muito menos de aprendizado no Brasil. Num país onde todo mundo só pensa em passar em concurso público, fica complicado você inovar e deixar um legado. Um amigo meu, Alex Catharino, me falou que o Brasil precisa de mais capitalismo – ele tem toda a razão.
Se os nossos políticos estimulassem as empresas a competirem mais, a inovarem mais, se o Estado se preocupasse apenas em garantir os serviços públicos básicos e a boa-fé dos contratos, em vez de dar Bolsa-família e cotas universitárias para as minorias raciais, esse País estaria muito mais desenvolvido do que hoje.
Eu confesso que quem empreende aqui é um herói – enfrenta uma violenta burocracia, impostos brutais e uma população que mal compreende a importância dos fenômenos da economia. São poucos os que lêem, não só por causa do alto preço dos livros, como também o material que é trazido a público é de qualidade questionável (temos publishers – pessoas que tratam livros como bananas na feira; é assim como as editoras jurídicas trabalham, com seus infindáveis “cursos” e “manuais” )
Resumo da ópera: o problema é cíclico, não localizado – é mais grave do que se pensa.